Ímpeto

Sentimento dilacerante, alucinante:
a força que experimento quando estou sob teu ímpeto
é incrível e destrutiva.

Ouço dizer que a destruição se assemelha a criação;
talvez queira criar a partir desta dor
que, paradoxalmente, me enche de orgulho
pela sanha que me habita e me impulsiona.

As lembranças, ora marcas de um amor constante,
tornam-se combustível para ebulições internas,
para ódios desencarnados que percorrem os neurônios,
as fibras e os músculos.

Sinto, como já senti muitas vezes,
o peso injusto e cruel da vida;
os descaminhos que me frustram,
os deuses que me iludem,
os templos que me escravizam,
fazendo-me desejar tudo que não tenha a ver com
a crueza de existir.

O prazer — ahhh, o prazer —,
imenso, criativo,
embalando as novas experiências
e tornando a descoberta de nossos corpos tão excitantes...
Sinto falta do prazer,
sobretudo daquele que brota da segurança
de um amor previsível;
o mesmo que, rio acima, deságua
no mar do tédio.

A paz, nossa paz,
experimentada em belos momentos ensolarados,
com tranquilidade e afago,
fora tudo violentamente queimado, despedaçado,
arrancado aos solavancos de mim,
extraído com carne e ossos.

O amor é inútil,
tal como a experiência terrestre o é!

Embora queira viver
e experimentar outros tantos prazeres e amores,
aspiro sobretudo pela paz derradeira,
aquela que deságua no tédio sereno
e que faz suportar a crueza da vida,
fazendo-nos, por alguns instantes,
esquecer:
que desejar é sofrer.

(Novembro de 2025)

Pintura: Ennui - Walter Richard




















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