O que procuro quando te procuro



O que procuro quando te procuro?

Pergunto-me: o que quero encontrar quando te encontro?
Ou melhor, de que tenho sede quando desejo beber-te?
Do que sinto fome quando quero devorar-te?
Ou então, o que tu tens que me devora?

Não compreendo que influência é esta:
pedacinhos de ti, expostos ali ou aqui,
me chamam, quase gritam por mim —
ou quase ouço gritos que, sem querer, querendo muito,
expresso por dentro.

O que procuro quando te procuro?
Nunca encontro,
e isso só alimenta minha busca
por algo que suspeito ter em ti,
mas que me foge sempre.
Por isso, estou sempre à procura.

Não te capturo,
e tu nem sabes das minhas insistências.

Talvez eu me veja em ti, ou pelo menos
encontre alguns pedacinhos de mim, ali ou aqui.
Talvez vidas e modos que um dia, em segredo, almejei
e não vivi.

Mas acho mesmo que, antes de tudo isso,
almejo ser ouvido.
Não de qualquer forma, nem por qualquer um.
Almejo ser ouvido pelos teus ouvidos
e receber de tua boca…
nada.
Como tu sempre me deste, em abundância.

Mas, afinal de contas,
por que procuro o que procuro
em ti, que nunca encontro?

(Março, 2026)


Pintura: Francesca Woodman - Space², 1976



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