Zé
Entre a fumaça, balançando de um lado a outro,
ria pelos cantos da boca,
enquanto balbuciava mistérios.
— A vida é curta — disse ele,
antevendo as palavras
daquele que, em sua frente,
aguardava um conselho.
Para Zé, a vida era muito curta,
pois de onde assistia,
passado, presente e futuro
se misturavam como fumaça no ar.
Seu recado se assemelhava ao de um sábio oriental
que, assistindo à própria vida passar
e na perspectiva de tantos renascimentos, dizia:
— Todas as experiências são finitas.
Os relacionamentos, todos passageiros.
E as pessoas que encontramos neste caminho
também andam em direção à finitude,
mas, por um instante, cruzaram conosco.
Algumas nos marcaram — claro.
Outras passaram quase despercebidas.
Alguns destes seres cativaram paixões,
ambições de construir relações duradouras
e ilusoriamente perpétuas.
Outros, a morte levou
antes mesmo de perceberem a música do mundo.
Seu tempo findou
antes de aprenderem a dançar.
O malandro relativizou a dor das partidas,
as dores das separações, das decepções.
— Tudo está incluso no banquete da existência —
e o sabor de cada prato se degusta,
sem escolha.
Para Zé, a ambiguidade fazia parte dos grandes ensinamentos:
— Aquilo que julgamos bom pode produzir o mal,
e aquilo que sentimos como dor pode gerar o belo,
se observado daqui.
Ele, sorrindo, gingando,
tomando um gole quente de marafo,
prosseguiu — ora com gracejos,
ora com a voz de um velho tio
contando segredos aos iniciantes.
— A vida se encarrega de alterar a mente meu fii,
as sensações, os sentidos.
Basta viver.
O sofrimento deve ser acolhido e provado.
Mas, como as alegrias que padecem ante um mal evento,
o sofrimento fenece quando os prazeres ressurgem.
Basta viver.
Sem o vislumbre destes balanços,
a vida se torna cinzenta, medíocre.
As experiências se limitam.
Não há novos horizontes.
Por fim, seu Zé revelou o teor de sua malandragem:
os malabarismos que lhe permitem transitar
entre mundos, humores, ambientes,
sem prender-se a nenhum aspecto da existência —
nem às grandes tristezas,
nem às estridentes alegrias.
Sua neutralidade e desapego
lhe conferiam uma lucidez
que, mesmo na embriaguez,
entre oscilações, interrupções e continuidades,
o protegiam,
fazendo-o rir da náusea dos homens.
ria pelos cantos da boca,
enquanto balbuciava mistérios.
— A vida é curta — disse ele,
antevendo as palavras
daquele que, em sua frente,
aguardava um conselho.
Para Zé, a vida era muito curta,
pois de onde assistia,
passado, presente e futuro
se misturavam como fumaça no ar.
Seu recado se assemelhava ao de um sábio oriental
que, assistindo à própria vida passar
e na perspectiva de tantos renascimentos, dizia:
— Todas as experiências são finitas.
Os relacionamentos, todos passageiros.
E as pessoas que encontramos neste caminho
também andam em direção à finitude,
mas, por um instante, cruzaram conosco.
Algumas nos marcaram — claro.
Outras passaram quase despercebidas.
Alguns destes seres cativaram paixões,
ambições de construir relações duradouras
e ilusoriamente perpétuas.
Outros, a morte levou
antes mesmo de perceberem a música do mundo.
Seu tempo findou
antes de aprenderem a dançar.
O malandro relativizou a dor das partidas,
as dores das separações, das decepções.
— Tudo está incluso no banquete da existência —
e o sabor de cada prato se degusta,
sem escolha.
Para Zé, a ambiguidade fazia parte dos grandes ensinamentos:
— Aquilo que julgamos bom pode produzir o mal,
e aquilo que sentimos como dor pode gerar o belo,
se observado daqui.
Ele, sorrindo, gingando,
tomando um gole quente de marafo,
prosseguiu — ora com gracejos,
ora com a voz de um velho tio
contando segredos aos iniciantes.
— A vida se encarrega de alterar a mente meu fii,
as sensações, os sentidos.
Basta viver.
O sofrimento deve ser acolhido e provado.
Mas, como as alegrias que padecem ante um mal evento,
o sofrimento fenece quando os prazeres ressurgem.
Basta viver.
Sem o vislumbre destes balanços,
a vida se torna cinzenta, medíocre.
As experiências se limitam.
Não há novos horizontes.
Por fim, seu Zé revelou o teor de sua malandragem:
os malabarismos que lhe permitem transitar
entre mundos, humores, ambientes,
sem prender-se a nenhum aspecto da existência —
nem às grandes tristezas,
nem às estridentes alegrias.
Sua neutralidade e desapego
lhe conferiam uma lucidez
que, mesmo na embriaguez,
entre oscilações, interrupções e continuidades,
o protegiam,
fazendo-o rir da náusea dos homens.
(Maio, 2026)




Comentários
Postar um comentário