Crítica ao poeta profundo

O poeta diz a si mesmo que odeia o raso.

Diz que para viver na mediocridade
é preciso um esforço enorme:
fugir de si, abrandar sua mente inquieta,
enganar sua alma faminta.
É preciso fuga!
Mentir a todos,
vestir cada máscara com precisão:
palhaço, amigo, amante, irmão.

Mas o poeta é triste — não sabe dançar
como os outros dançam.

Confessa, então, baixinho:
Isto é um tormento.
É me ver entediado,
absorto em devaneios profundos
sobre a vida, a morte,
o sentido funesto das coisas.

Além disso, o pobre poeta — invejável na sua pobreza —
não coleciona afetos.
Murmura que é preciso um sorriso idiota, 
variedade de amantes, estar sempre entre amigos, 
e se derramar em demasia a ponto de esvair-se. 

Ah, poeta, ficarás quieto, então!
Com teus versos,
com tuas preces
a deuses desconhecidos,
aos sussurros que ninguém ouve.

Nada há nada de errado em ti.
Só queres o silêncio,
a calmaria,
pois teu interior gera tormentas
em copos d’água.

Deixo-te ir.
Afasta-te.
Fica ao largo,
observa os estranhos entretidos
em suas vaidades.

Vaidades invejáveis, sim,
porque eles riem, vês?
Estão acompanhados.
Experimentam sabores
que imagino te põem água na boca.

Mas fica aí, na tua pose,
justificando medos e fragilidades
com fraseologias que remontam
a um certo romantismo medíocre.

Repetindo que
a ti só resta observar,
invejar o que não és
e sofrer o tormento
de escrever
poemas
jogados ao vento,
e que,
quem sabe,
servirão a alguém
à procura
de supostas profundidades. 

Triste poeta.
És triste porque amas mais
tua poesia
e teus estados de espírito
do que
todo o mundo. 

— Prezado crítico, 
vá a merda!

(Dezembro, 2025)

Pintura: O Asceta - Pablo Picasso


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