Educação como (des)prazer

Otniel Fernandes CRP 12/24382


No livro "Psicanálise e Educação, laços refeitos" a autora Marcia Neder Bacha, levanta aspectos da teoria psicanalítica que poderiam contribuir para a prática pedagógica, ou, no mínimo, para a reflexão sobre o educar e ensinar. Para além do velho jargão (sempre atual) de Freud, "ensinar, psicanalisar e governar" como ofícios impossíveis, a autora discorre sobre as nuances inconscientes que se expressam na relação do docente com os alunos, com seu particular mundo psíquico e com os conhecimentos com os quais seduz ou castiga seus ouvintes.

Entre os muitos assuntos que a escritora aborda, como psicanalista, não poderia evitar um dos temas evidentes em toda brilhante obra freudiana: A importância fundamental do prazer, envolto na promoção do conhecimento.

Assim, como no aparelho psíquico forjado em estruturais sociais repressivas e moralizantes, o prazer, ligado inconscientemente a aspectos sexuais, tende a ser marginalizado e suprimido no processo educativo, substituído, mecanicamente, pela técnica, pela disciplina, repressão e por fim, pela relação sádica, do professor/autoridade/dono do saber com o aluno tornado rebelde e ignorante. 

Nesta fuga, assustada, de eros (celebrado na Antiguidade, como elemento fundamental no despertar da curiosidade e desejo de criar, diante da amada figura do mestre) há na escola moderna, a curiosa ação de mecanismos repressivos, em que o seu oposto surge como sintoma. 

A relação persecutória entre professor e aluno. Os conhecimentos tidos como sagrados, imprescindíveis e indispensáveis para a captura absoluta do outro, promovida pela figura onipotente e terrivelmente iludida, do professor. Nesta angustiada busca pelo controle de elementos reprimidos de sua própria "personalidade", a manipulação sádica do outro, surge como descarga possível, dos tensionamentos que a educação sem prazer, provoca.  

    Logo, um dos aspectos essenciais do desejo de aprender, é sufocado, pelo afã compulsório por ensinar, como dever. 

               Quando a escola obriga a criança a deixar do lado de fora do portão seus afetos e interesses através de um ensino que passa ao largo de sua vida, para não lhe proporcionar mais que uma atividade intelectual idealizada, faz da educação uma adaptação, e da criança a educar, o objetivo da projeção de um ideal. E do conhecimento, mais uma dentre as camisas de força adaptativas, com as quais o adulto tenta dominar e aprisionar a criança (BACHA, 1998, p. 189). 




REFERÊNCIA

BACHA, M. (1998) Psicanálise e Educação. Laços refeitos. Campo Grande, MS: Ed. UFMS; São Paulo, SP: Casa do Psicólogo.

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