Conflitos em Análise

"É bem sabido que em todos os períodos houve, como ainda há, pessoas que podem tomar como objetos sexuais membros do seu próprio sexo, bem como do sexo oposto, sem que uma das inclinações interfira na outra. Chamamos tais pessoas de bissexuais e aceitamos sua existência sem sentir muita surpresa sobre elas. Viemos a saber, contudo, que todo ser humano é bissexual nesse sentido e sua libido se distribui, quer de maneira manifesta, quer de maneira latente, por objetos de ambos os sexos. Mas ficamos impressionados pelo ponto seguinte. Ao passo que na primeira classe de pessoas as duas tendências prosseguem juntas sem se chocarem, na segunda classe, mais numerosa, elas se encontram em um estado de conflito irreconciliável. A heterossexualidade de um homem não se conformará com nenhuma homossexualidade e vice e versa. Se a primeira é mais forte, ela obtém êxito em manter a segunda latente e em afastá-la, pela força, da satisfação da realidade. Por outro lado, não existe maior perigo para a função heterossexual de um homem do que o de ser perturbada por sua homossexualidade latente."

Neste trecho, escrito por Freud em 1937, há uma ilustração sobre os conflitos inconscientes que subjazem no funcionamento psíquico de qualquer pessoa. Visto haver uma quantia limitada de libido (energia psíquica) que alimenta determinadas disposições, vontades, fantasias e inclinações que, por sua vez,  alimentam as formas de expressão dos sujeitos na vida. Esses conflitos, não necessariamente se expressam pela via estritamente erótica, mas sim, por movimentos de expansão ou retração, amor ou hostilidade, agressividade ou afago, expressões de vida ou manifestações de morte, entre outras formações das mais incríveis e diversas. 

É interessante notar que o tema do conflito, das polaridades, atravessa não apenas a teoria psicanalítica, mas também diversas formações culturais, como a filosofia, as artes, os mitos e as religiões. Desde as mais antigas narrativas, a humanidade busca representar, por meio de pares opostos, a tensão que constitui a própria vida psíquica. Essas oposições, presentes em símbolos, músicas, filmes, poesias e cantigas, traduzem o esforço humano de dar forma àquilo que internamente se mostra contraditório. 

Cada produção cultural, à sua maneira, oferece uma via de elaboração simbólica para os conflitos que habitam o sujeito — um modo de transformar o indizível em linguagem, o inconsciente em expressão sensível. Assim, a arte e o pensamento tornam-se lugares privilegiados de revelação e reconciliação parcial entre as forças opostas que movem o desejo. A riqueza conflituosa que nos habita, longe de ser apenas fonte de sofrimento, pode também ser reconhecida como a origem da criação, da sensibilidade e da possibilidade mesma de existir de forma fluida em um mundo que se movimenta. 


Referências 

Análise terminável e interminável [1937]. In: Obras Completas de Sigmund Freud, Vol. XXIII. Rio de Janeiro: Imago Ed., 1996.

(Pintura:“O Sonho” – Pablo Picasso (1932))

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