A natureza do psíquico

"Certa vez, o presidente de um órgão público (a Câmara Baixa do Parlamento Austríaco) começou uma reunião dizendo: "Vejo que todos os membros estão presentes, então declaro a sessão encerrada." Foi um erro de fala, pois ele claramente queria dizer "aberta". Por que ele disse o oposto então? Alguém poderia argumentar que foi um erro acidental, uma falha em seguir a intenção original, o que pode acontecer por várias razões. Afinal, as palavras opostas são bastante parecidas e podem ser trocadas facilmente. No entanto, se considerarmos o contexto em que o erro ocorreu, podemos encontrar outra explicação.



As sessões anteriores da Câmara tinham sido turbulentas e improdutivas, então o presidente poderia ter pensado, ao iniciar a nova sessão: "Eu preferiria encerrá-la do que abri-la, dada a situação". Quando começou a falar, provavelmente não estava consciente desse desejo, mas ele estava presente em sua mente e acabou se manifestando, inadvertidamente, no erro que cometeu. Um único exemplo não é suficiente para decidir entre essas duas explicações tão diferentes. Mas, e se todos os outros casos de lapsos de linguagem pudessem ser explicados da mesma forma, assim como lapsos de escrita, leituras incorretas e atos falhos? E se fosse possível mostrar que em todos esses casos, sem exceção, houve um pensamento, desejo ou intenção inconsciente que explicou o erro aparente e que se tornou consciente apenas quando se manifestou, mesmo que tenha sido consciente anteriormente? Se isso fosse verdade, não poderíamos mais debater se existem atos mentais inconscientes e se, às vezes, eles podem agir mesmo quando estão fora da consciência, superando as intenções conscientes.

Quando alguém comete um erro desse tipo, pode reagir de várias maneiras. Pode ignorá-lo ou notá-lo e ficar envergonhado. Normalmente, não consegue explicá-lo por conta própria e muitas vezes reluta em aceitar uma explicação quando é oferecida.

Outro exemplo. Em relação às pessoas em estado de hipnose, é possível demonstrar experimentalmente que atos mentais inconscientes existem e que a consciência não é necessária para a atividade mental. Quem já testemunhou uma experiência desse tipo fica profundamente impressionado e convencido. Eis como funciona:

Um médico entra na enfermaria de um hospital, hipnotiza um paciente e diz: "Vou sair agora. Quando eu voltar, você vai abrir o guarda-chuva e segurá-lo sobre minha cabeça." O médico e seus assistentes saem da sala. Quando voltam, o paciente, que não está mais sob hipnose, faz exatamente o que lhe foi sugerido quando estava hipnotizado. O médico pergunta: "O que você está fazendo? Qual é o significado disso?" O paciente fica claramente embaraçado, fazendo uma observação desajeitada, como: "Está chovendo lá fora, doutor, achei que você abriria o guarda-chuva na sala antes de sair." Essa explicação é inadequada, mas foi dada impulsivamente para tentar justificar seu comportamento estranho. No entanto, fica claro para os espectadores que o paciente desconhece o motivo real. Nós sabemos qual é, pois estávamos presentes quando a sugestão foi dada, mas o paciente não tem conhecimento do que está acontecendo dentro dele."

Por meio destes dois exemplos, Freud (1940) desvela as sombras das manifestações do inconsciente, essência profunda do que nomeamos psíquico. Como a eletricidade na pesquisa, que recorre a sua ação no mundo físico para atestar sua existência, o inconsciente se insinua através de uma lógica interna, deslizando para além das amarras da censura egóica. Ele se expressa em fantasias, sonhos, alucinações, atitudes, comportamentos, repetições, palavras e afetos, frequentemente disfarçados como estranhos intrusos, fragmentos desconexos e desejos inconfessáveis. Esse manto oculto de nossa psiquê, com cuidado especial, a psicanálise examina, lançando-se na exploração de seu modo de ser e operar, desvendando o "eu" desconhecido.

Neste caminho, a "consciência" que as psicoterapias abordam se torna uma qualidade efêmera da "mente", ora presente, ora ausente. Ela assume uma importante utilidade ao se comprometer, por meio de um pacto terapêutico, a iluminar e guiar, junto ao analista, as profundezas da vida mental.

Em resumo, as pesquisas em psicanálise, segundo Freud, consistem em traduzir os processos inconscientes em conscientes, preenchendo as lacunas de histórias fragmentadas ou desmembrando, em certos casos, narrativas outrora coesas, para que uma nova forma de vida seja possível.

Em análise, o inconsciente pode se dizer.


(Agosto, 2023)

REFERÊNCIAS

FREUD, S. (1940) Algumas lições elementares de psicanálise. In: Obras Completas – Edição Standard Brasileira, v. XXIII. Tradutores diversos. Rio de Janeiro:Imago.



Pintura: Ambivalência -Angélica Araya Arriagada


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