Freud, para ansiosos
No desenrolar das obras freudianas, a teoria psicanalítica, fruto do desejo de escrutínio psicológico de seus autores, torna-se também um método de tratamento, pela escuta, não apenas da fala do paciente, mas sobretudo, do sujeito do inconsciente. Do não dito, do que foge à pronúncia, do que se faz oculto, desconhecido, pelo incômodo e incoerência, pelo interdito e absurdo.
Freud inventa a psicanálise como meio de descrever as descobertas surpreendentes da rica vida psíquica de seus pacientes, além de ser também objeto de estudo que estuda o objeto no qual se imiscui. Tamanha precisão, delicadeza e sutileza há nas escutas analíticas, que permitem ao analisado ser surpreendido pela própria fala, ou pelo próprio desejo que ora impulsiona, ora resiste à mesma, criando, fantasiando, rememorando até mesmo o que nunca foi vivido, a não ser como ficção, e por isso, real.
Na vida psíquica, a realidade e a fantasia são frutos de uma mesma árvore, têm o mesmo gosto, a mesma concretude. Ambas alimentam o paladar e são capazes de nutrir a vida mental, excitando o movimento. Tanto prazeres como dores podem abrigar-se nos redutos da percepção, impulsionando reações, sensações, atitudes e, eventualmente, a formação de sintomas.
Em uma de suas últimas conferências, intitulada "Ansiedade e vida instintual", Sigmund nos presenteia com uma bela digressão sobre este fenômeno da vida psíquica cotidiana (mais cotidiana do que nunca), elencando três principais formas de ansiedade, que se diferenciam pela fonte, objeto e vias de manifestação. A ansiedade realística, a neurótica e a moral. Cada uma destas, vinculadas a "regiões" do aparelho psíquico compreendido até então, composto pelo Ego, ID e Superego. É provável que os leitores que vieram até aqui, já tenham ouvido falar amplamente sobre as configurações da segunda tópica, não nos deteremos nelas, apenas explicitaremos as diferenças evidentes entre as "ansiedades" freudianas.
A ansiedade realística relaciona-se a um sinal do ego diante da iminência de um perigo real, externo, parte do presente ou do passado (que retorna atualizado em outro evento/objeto). Manifestações do "instinto de autopreservação", é herança filogenética, responsável por nos privar de eventos desprazerosos. Nada mais "justo", não é?
Na ansiedade neurótica, o organismo tenta fugir de um perigo interno, de origem psicológica, o qual não se apresenta explicitamente na consciência do ansioso, que pouco sabe sobre sua ansiedade. Muitas vezes, ligadas a substratos inconscientes de origem sexual (o ID), se atualizam formando sintomas, que por vezes, imobilizam a vida do sujeito, que padece de inibições sem sentido, sofrimentos sem destino, e por isso, insistentes - e interessantes -.
Ansiedade moral, ligada ao que a psicanálise chama de superego, aglutina-se a instância auto observadora, julgadora, exigente e intransigente que representa a introjeção e incorporação das imagos paternas e maternas. São expressões das exigências sublimes - e por isso inclementes - que castigam o sujeito por sua completa insuficiência, feiura, por seus erros e deliciosos acertos pecados. Também podem se manifestar disfarçadamente, sob outras roupagens, pois em grande parte, também fogem o exame consciente e intelectivo.
Além destas, há muitos outros caminhos que percorrem as ansiedades (escreveremos em um próximo momento, não fiquem ansiosos).
Hoje, muitas pessoas se autodenominam ansiosas, há quem goste de autodiagnósticos, há quem remunere quem lhes diagnostica, quem dá nome ao seu sofrimento para que possam chamar de meu, minha ansiedade.
A psicanálise nos lembra que há mais mistérios entre o sintoma e o sujeito, do que sonham nossas vãs nomenclaturas. Em análise, pode-se falar sobre o que não tem nome...
REFERÊNCIAS
FREUD, Sigmund. Conferência XXXII: ansiedade e vida instintual, 1932. Novas conferências introdutórias sobre psicanálise. Rio de Janeiro: Imago, 1996. p. 85-112. (Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud, 22).



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