Grafite, as vozes da cidade, tentativas de silenciamento
Otniel Fernandes CRP 12/24382
Desde o surgimento do ser humano na Terra até os dias atuais, a necessidade de comunicar fatos, emoções, sentimentos, memórias e desejos impulsionou a criação da simbologia e da linguagem. A primeira manifestação dessa comunicação é atribuída às pinturas rupestres nas antigas civilizações. Apesar do desenvolvimento da oralidade, a comunicação visual por meio de escritas também marcou presença, seja nos hieróglifos nos túmulos dos faraós, nas inscrições em piche na civilização romana gravadas em muros, ou nos resquícios, grafismos e construções deixados pelos povos originários e pelas etnias indígenas exterminadas durante o cruel processo de invasão e colonização das Américas.
Com o passar do tempo, essas formas de comunicação visual adquiriram novos significados, vinculando-se, em alguns contextos do mundo moderno, à cultura Hip Hop, aos movimentos suburbanos, às formas de comunicação das periferias e dos grandes centros, tornando-se um veículo de comunicação e um instrumento de visibilidade para comunidades historicamente marginalizadas. Além disso, elas carregam anseios políticos, como evidenciado durante a ditadura empresarial militar brasileira, em que as inscrições em propriedades públicas e privadas revelavam frases e imagens de protestos e resistência às opressões, perseguições e torturas vivenciadas por parte da população (ANTONELLO, 2009).
É importante salientar que o grafite se distingue da pichação por seu caráter "profissional", seu incentivo governamental e pela inclusão de uma grande comunidade de artistas urbanos. No entanto, persiste o preconceito social que considera o grafite uma forma de vandalismo, apesar dos esforços dos órgãos públicos em promover a cultura por meio dessas expressões, que não apenas carregam um caráter de protesto, mas também retratam o cotidiano das cidades, a cultura local e as formas de vida de determinados povos em sua pluralidade.
Além desses aspectos, cada expressão artística possui um significado psicológico, conforme apontado por Orlandi (2004). O grafite, como manifestação urbana, expressa contradições entrelaçadas nas relações urbanas por meio de formas e cores, revelando significados diversos relacionados à convivência entre os seres humanos nos territórios.
Nas obras freudianas, observamos um grande interesse pela estética e pelas criações artísticas como caminhos pulsionais possíveis, via sublimação. A sublimação é entendida como a transformação da energia psíquica de origem sexual em objetivos dessexualizados, de estima social. É uma forma de estabelecer laços sociais, permitindo ao artista expressar desejos reprimidos de maneira socialmente aceitável. Conforme pontuado por Lacan, "o sublime é o ponto mais elevado do que está em baixo".
De acordo com Freud (1921), o objetivo primário do artista é libertar-se e, ao comunicar sua obra a outras pessoas que compartilham dos mesmos desejos reprimidos, oferece-lhes a mesma libertação. O artista retrata algo de si mesmo, contribuindo para a representação da cultura, história, política e território ao qual pertence como sujeito desejante, um sujeito multifacetado que expressa uma variedade de rostos, emoções e modos. A comunicação do reprimido também é a comunicação do que é reprimido na cidade, nas ruas, becos, praças e encruzilhadas, daí o caráter incômodo e subversivo para aqueles que tentam silenciar as diversas vozes que compõem uma comunidade.
Pensemos na construção de nossa identidade, por meio da imagem que fazemos de nós, desempenhamos um papel formador do eu, representando uma identificação imaginária como uma unidade total. No entanto, para a psicanálise, não há totalidade ou completude; estamos sempre sujeitos à imagem especular, às contradições e às lacunas de sentido. O sintoma surge a partir das resistências em elaborar outras imagens de si mesmo e do outro, gerando conflitos entre o que pode ser visto e dito imageticamente e o que não pode ser expresso. A imagem de si comumente carrega uma repressão, como destacado por Azambuja (2016), sendo uma forma de ficção que informa tanto o que pode ser dito quanto o que deve ser silenciado.
Formamos um todo organizado, quando pensamos em nós, mas também quando pensamos no outro, em um coletivo imenso de pessoas como uma cidade, por exemplo.
As imagens do grafite podem ser compreendidas como as vozes da cidade, corroborando o ditado popular "uma imagem vale mais do que mil palavras". A questão que se coloca é: por que seria do interesse de alguns que as vozes da cidade não fossem ouvidas?
O grafite representa a marca deixada pelos indivíduos, uma expressão intrínseca ao inconsciente. Ele aponta para um impulso desafiador contra todo poder central, seja político, econômico ou linguístico. No cerne do grafite, há sempre uma forma de expressão que traz à tona uma problemática. Seja por meio de murais desenhados, inscrições ou outras manifestações, o grafite emerge em um hibridismo entre os impulsos primários de satisfação de desejos inconscientes e a manifestação secundária social de revolta contra as estruturas estabelecidas e institucionais (SILVA, 2014, p.82).
Além de sua estética, a arte desempenha o papel de transmitir informações, comunicando uma variedade de mensagens ao longo do tempo. A arte urbana, em particular, frequentemente expressa problemáticas relacionadas às diversas marcas das condições humanas. Cada manifestação artística tem sua origem em alguma questão, representando a busca por respostas e a necessidade de comunicar, para além do belo, as complexidades e inquietações que permeiam a experiência humana (AZAMBUJA, 2016).
REFERÊNCIAS
AZAMBUJA ALVES DE LIMA, Taís. Marcas do inconsciente: grafite, psicanálise e possíveis interlocuções, 2016.
FREUD, Sigmund. Psicologia de grupo e a análise do ego (1921). Além do princípio de prazer, psicologia de grupo e outros trabalhos. Rio de Janeiro: Imago, 2006.
ORLANDI, Eni. Cidade dos sentidos. Campinas: Pontes, 2004.
SILVA, Armando. Atmosferas urbanas: grafite, arte pública, nichos estéticos. São Paulo: Editores Sesc, 2014.






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