As pseudoterapias e o macarrão instantâneo

    

    Nas Novas Conferências de Psicanálise, Freud, já em idade avançada, aborda diversos aspectos interessantes da teoria psicanalítica, a qual, embora reconhecida nos círculos acadêmicos da época, era alvo de intensas críticas. De forma franca e despretensiosa, o fundador da psicanálise avalia os avanços das pesquisas científicas dentro desse campo do conhecimento, bem como os efeitos terapêuticos que a investigação do inconsciente trouxera para muitos pacientes ao longo dos anos.

    Com seu compromisso intelectual, Freud examina de maneira crítica os limites do estudo psicológico até então alcançado, as dificuldades enfrentadas nos processos analíticos e os casos de sucesso e fracasso da terapêutica emergente. No entanto, ele não se mostra inclinado a admitir que os limites do tratamento psicanalítico sejam imutáveis. Da mesma forma, ele não nega a ideia de que o conhecimento progride e que as fronteiras são constantemente ultrapassadas, dando lugar à demarcação de novos territórios do saber.

    No entanto, no texto percebemos o desconforto de Freud ao descrever a produção teórica e a prática clínica de alguns de seus discípulos. Além das discordâncias conceituais, a história da psicanálise também é marcada por tentativas de cisão e desenvolvimento de outras abordagens terapêuticas que se sujeitavam confortavelmente às demandas específicas dos próprios autores e aos apelos sociais em que estavam inseridos. Neste sentido, ainda hoje os profissionais da psicologia enfrentam grandes desafios. As palavras de Sigmund ressoam com uma atualidade surpreendente quando critica o que chama de "psicologia do ego" :

"Uma teoria como esta, contudo, está fadada a ser muito bem recebida pela grande massa do povo, uma teoria que não apresenta complicações, que não introduz conceitos novos, difíceis de compreender, que nada sabe do insconsciente, que com apenas um gesto elimina o problema universalmente opressivo da sexualidade, e que se limita à descoberta de artifícios pelos quais as pessoas tornam fácil a vida. Pois a massa do povo aceita as coisas facilmente: ela não exige mais do que um único motivo à maneira de explicação, não agradece a ciência por sua falta de limites, quer ter soluções simples e saber que os problemas estão solucionados."

    Na psicanálise, o tratamento das neuroses, as vezes, requerem um investimento significativo de tempo, comprometimento emocional profundo, disposição para enfrentar as próprias resistências e revisitar experiências passadas desafiadoras. Além disso, a análise proporciona ao analisado a oportunidade de explorar de perto seus medos mais arraigados, investigando os caminhos pelos quais seus desejos se escondem e se disfarçam.

    Certamente, os psicanalistas e psicólogos contemporâneos enfrentam grandes desafios ao resistir à pressão do mercado por soluções rápidas, diagnósticos simplificados e tratamentos psicoterapêuticos "milagrosos". Ao manterem a integridade do processo analítico, esses profissionais não se limitam a ser apenas confidentes casuais ou amigos para seus pacientes. Além disso, ao resistirem aos apelos para reduzir a terapêutica a práticas sem embasamento teórico, eles o fazem com coragem, recusando manobras fundadas apenas em intuições pessoais e manipulações irresponsáveis.

    Nesse sentido, há uma clara oposição entre o tratamento psicológico profundo e as pseudoterapias, que oferecem soluções rápidas e superficiais, sem qualquer fundamento técnico e metodológico confiável. 

    A patologização excessiva e a produção exacerbada de diagnósticos contribuem para essa simplificação equivocada da complexidade humana, oferecendo respostas fáceis e padronizadas para questões obscuras e multifacetadas da psique. Enquanto a psicanálise busca compreender as complexidades da "mente" e promover uma investigação aguda, reconhecendo os seus limites, as pseudoterapias podem enganar temporariamente, como um macarrão instantâneo, oferecendo uma falsa sensação de saciedade sem de fato nutrir o organismo. 

    Freud, com sua vasta experiência, nos lembra que é essencial que qualquer abordagem comprometida com o bem-estar humano reconheça suas próprias fragilidades, demonstrando responsabilidade em relação à sua prática. Dessa forma, deixa claro que o excesso de certezas pode ser um sinal negativo.

" Nenhum leitor de um artigo sobre astronomia se sentirá desapontado e desdenhoso em relação à ciência quando lhe são mostradas aquelas fronteiras em que nosso conhecimento do universo se transforma em nebulosidade. Somente na psicologia isto é diferente. Nesta, surge inteiramente à mostra. O que as pessoas parecem exigir da psicologia não é o progresso no conhecimento, mas satisfações de algum outro tipo; todo problema não resolvido, toda incerteza reconhecida é transformada em vitupério contra ela. 
     Todo aquele que zela pela ciência da vida mental deve aceitar também essas injustiças que a acompanham"




REFERÊNCIAS

FREUD, Sigmund. Conferência XXXIV: explicações, aplicações e orientações, 1932. In:. Novas conferências introdutórias sobre psicanálise. Rio de Janeiro: Imago, 1996. p. 135-154. (Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud, 22).


(Pintura - Mais 'Pasta' Por Favor" - Pattu Schermerhorn)


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