Amor, entre mitos
Como dizia o poeta Rainer Maria Rilke: "O amor é isso: duas solidões que se protegem, se tocam e se acolhem".
Vivemos cercados por uma poderosa propaganda do amor romântico como fusão total, completude absoluta, superação definitiva da infelicidade. Mitos fundadores alimentam esses anseios de dissolução do eu no outro - como o homem de barro que ganha vida com um sopro divino, até receber sua companheira, parte de seu próprio corpo: carne de sua carne, osso de seus ossos.
Ou ainda as clássicas narrativas de contos de fada, onde sapos se transformam em príncipes e princesas são resgatadas de castelos distantes para viverem "felizes para sempre".
Nada mais distante da verdadeira natureza do amor. Através das análises de Freud e Lacan, descobrimos que o amor se manifesta justamente na incompletude, na falta, nesse desejo primordial por reconectar-se com um objeto perdido que jamais será reencontrado. O amor como expressão máxima da sede humana por significado e prazer.
A psicanálise demonstra que é precisamente na distância, no reconhecimento da alteridade, que o amor se torna possível. Amar não é possuir, mas criar continuamente novas formas de encontro nesse delicado equilíbrio entre prazer e dor que a própria existência nos impõe.
O amor não nega nossa solidão fundamental, mas a transforma. Faz da incompletude não um vazio, mas terreno fértil onde dois desejos podem dançar juntos - sem jamais se confundir, sem jamais se saciar.
É nesse espaço entre os seres, nessa fronteira que separa e une, que o amor pulsa e procura, para manter-se vivo.
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Pintura: Adão e Eva, C.1550 - Tiziano Vecelli |
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