Loucura - Um trecho de Lima Barreto
Perdia-se logo a ideia popular da loucura; o alvoroço, os trejeitos, as fúrias, o choque de tolices ditas aqui e ali. Não havia nada disso; era uma calma, um silêncio, uma ordem perfeitamente natural. No fim, porém, quando se examinam bem, na sala de visitas, aquelas faces transtornadas, aqueles ares desorientados, alguns desorientados e sem expressão, outros como perdidos e mergulhados em um sonho íntimo sem fim, e via-se também a excitação de uns, mais viva diante do abatimento de outros, é que se sentia bem o horror da loucura, seu angustioso mistério, feito não sei de que inexplicável fuga do espírito daquilo que supõe o real, para se apossar e viver das ap arências das coisas ou de outras aparências das mesmas.
Quem uma vez esteve diante deste enigma indecifrável da nossa própria natureza fica amedrontado, sentindo que o germe daquilo está depositado em nós e que por qualquer coisa ele nos invade, nos toma, nos esmaga e nos sepulta numa desesperadora compreensão inversa e absurda de nós mesmos, dos outros e do mundo. Cada louco traz em si o seu mundo e para ele não há mais semelhantes: o que foi antes da loucura é outro muito outro do que ele vem a ser após. E essa mudança não começa, não se sente quando começa e quase nunca acaba. Com o seu padrinho, como foi? A princípio(...) um capricho, uma fantasia, coisa sem importância, uma ideia de velho sem consequência. Depois (...) não tinha importância, uma simples distração, coisa que acontece a cada passo... E enfim? A loucura declarada, a terrível e irônica loucura que tira a nossa alma e põe uma outra, que nos rebaixa...
Enfim, a loucura declarada, a exaltação do eu, a mania de não sair, de se dizer perseguido, de imaginar como inimigos, os amigos, os melhores. Como foi doloroso aquilo! A primeira fase do seu delírio, aquela agitação desordenada, aquele falar sem nexo, sem acordo com que se realizava fora dele e com os atos passados, um falar que não se sabia de onde vinha, de onde saía, de que ponto do seu ser tomava conhecimento! (...) Um pavor de quem viu um cataclismo, que o fazia tremer todo, desde os pés à cabeça, e enchia-o de indiferença.
REFERÊNCIAS: BARRETO, Lima. Triste fim de policarpo quaresma.





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