A casa ficou vazia

A casa ficou vazia.
Logo o silêncio preencheu todos os cantos.
Os quartos e os corredores eram embalados pela brisa
que pela janela adentrava
os largos vácuos do espaço e do tempo.

O felino esparramou-se pelo piso gelado,
entre um quarto e outro,
balbuciando ronronadas de conforto.

O jovem enlutado,
sentado ao sofá,
sentia uma paz serena,
junto com o vento macio
acariciando seu corpo.

Ruídos de vizinhos, ouvindo no rádio
modas antigas, traziam de fundo
saudade.

Aos poucos a tristeza vai abrindo
espaços para a poesia.
E a poesia,
mergulhada na imaginação,
satisfaz de maneira delicada e sutil
o apetite.

Apetitoso é morrer
para que outras vidas venham
nascendo
entre partos,
ranger de dentes
e dor.

A vida traz consigo
desconhecidas versões de si
e uma profundidade taciturna e sóbria
de quem já amou
e experimentou a morte lenta
do mesmo.

Hoje, os silêncios que preenchem a casa
o esvaziam de amores que jazem.
E
a quietude,
tão profunda,
o preenchem também.


(Novembro de 2025)

Pintura: Ausência - Stefano Mussato


Comentários

Postagens mais visitadas