Carta para leitura póstuma
Escrevo esta carta para leitura póstuma.
Amémos.
Fui feliz, na medida do possível. Não me arrependo de ter alçado voos e conhecido tudo o que pude, testando limites. Passei de alguns, confesso que cometi abusos — foi bom!
Viver com medo de estar verdadeiramente vivo é morrer em vida, arrastar-se como uma carcaça humana em putrefação. O mau cheiro da vida quase vivida é insuportável: afeta o solo, as árvores e os humanos que ousem se perguntar pelo bem viver com gosto.
Conheci o Deus da vida (sim, nunca consegui escapar de temas teológicos), e Ele era distinto daquele que, aos gritos nos templos, incita à violência, à agressão — o que cultua a morte em nome de Deus, a morte de Deus em favor de muitos e a morte de muitos em favor de Deus.
O Deus da vida ama as árvores e os animais, os riachos e os mares, os montes e as campinas. O Deus da vida fez o sexo, talvez tenha feito sexo! O fez com todas as suas nuances e expressões. Fez as delícias da noite e os sabores do dia.
Este Deus é artista, bem-humorado e impotente diante da barbárie humana, assim como os homens o são quando estão sob o jugo de poderes que os debilitam e os massacram.
O Deus da vida morre — é morto todos os dias.
Temo estar fabricando um ídolo, como aqueles onipotentes e oniscientes que nada fazem ante o sofrimento humano. Mas se for um ídolo, este, pelo menos, é coerente com a história humana e com a produção de suas barbaridades.
Vida além da morte? É possível. Abraçá-la-ei com todo o ânimo, mas ressalto que a aceitarei se for de graça. Morri sem um tostão no bolso, sem capital simbólico e espiritual.
Não fui um beato, graças a Deus.
E Deus sabe o quanto sofri até desejar não sê-lo.
Cogitações teológicas de uma ex-ovelha domesticável.
Agradeço aos amigos pelas experiências incríveis que vivi ao lado deles. Sem eles, não haveria motivo para gargalhar.
Agradeço à família pelo amor terno, pelas grandes expectativas, pela esperança em minha ética pessoal, em um futuro brilhante ou por perceberem minhas limitações e as amarem.
Agradeço aos meus irmãos — nossa infância foi maravilhosa.
Agradeço, mais do que tudo, ao amor infinito e sofrível de minha mãe. Só este amor faz meus olhos se encherem d’água.
Ao meu pai, desejo que um dia encontre um Deus atrapalhado, que o faça se sentir bem consigo, sem obrigações, dogmas, regras ou estatutos morais.
Um Deus poeta. Será um grande milagre!
Aos demais, o silêncio perene.
A ausência.
Amémos.
(Novembro, 2025)
* Obs: isto é arte, não pretende ser um prelúdio, muito menos despedida.





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