Se tu interessa-me

Não quero saber se tu sabes,
se desenrolas poemas abaixo dos olhos
com avidez.

Não me interessam os teus acúmulos
em bibliotecas interiores.

Ou se o tempo te entregara vastas experiências,
e se os corpos que em ti se entrelaçaram
deixaram marcas de existências
com as quais construíste
um saber sobre a vida.

Não me cativa esse afã de espírito,
essa astúcia em brincar com palavras,
com páginas recheadas, 
fraseologias ruminadas
por mestres e mestras.

Interessa-me demasiado,
cativa-me,
aguça-me os sentidos
saber se tu sangras como eu sangro.

Se teus olhos marejam ao ver a beleza fugaz,
e teu sorriso se esconde ao colher
lancinantes lembranças que surgem
de repente
nas esquinas
ao fitar coisas singelas.

Me interessa entender
como tua dor aparece
e como teu gozo
transborda.

Se tu, ao avistares um amor,
abres o peito e o preparas
para sangrar novamente.

Se tu foste alvo de setas
que te atravessaram.

Se tu sentiste dores árduas
e que aos gaguejos as pronuncias.

E se teu amor morreu
tantas e tantas vezes.

Interessa-me saber se há em ti
obscuridades inconfessáveis.

Se nas noites lúbricas,
a fera que há em ti
desvanece.

Se tu enfrentas o desprezo
com um sorriso torpe.

Se tu insultas o bom gosto
e cospes na face
daqueles que cultivam
bons modos,
morais,
supostas; 
nobrezas em causa própria.

Provoca-me
saber se tu amas ainda,
se há coragem em ti
para destruir ligeiramente os muros que construíste,
ao ver o amor que chega.

Se as fortalezas se despedaçam
ao ouvir
o canto doce
e feroz
que trepida o corpo. 

Se tua coragem insensata
te expõe ao risco
de mais uma vez
arder.

Interessa-me avidamente saber
o quanto tu, despida,
desejas ainda.

Amas ainda.

E sofres ainda.

Morres ainda.

E vives ainda.

Se tu rasgas as cerimônias
como rasgas teu peito

e

vem

(Novembro, 2025)

Pintura: Frenesi da Exultação - Władysław Podkowiński

Comentários

Postagens mais visitadas