Caricatura de dois amores

Há um desencaixe fundamental entre nós.

Tu dizes que viver tentando 
encaixar-te em formas e modos
faz-te cansar.

Eu digo que é cansativo
dizer muitas vezes as mesmas coisas,
solicitar
que se atente a isto ou aquilo.

Tu sentes o enfado da crítica
que sobre ti recai, quando falas
e te expressas euforicamente,
saltitando de um assunto a outro, 
de uma quimera a outra. 

Eu digo que enfada-me muito
ouvir galhofas
quando atropelam as coisas sérias
e os assuntos prementes.

Tu me rodeavas com teu afeto, com teu júbilo,
e eu,
preocupado,
pensava em como realizar
nossas alegrias,
e o futuro.

Tu me amavas com teu afago,
e eu te amava empenhando-me
apaixonadamente
nos planos que criava
para ter-te a meu lado.

Tu pedias mais leveza,
e eu te pedia que descesses um pouco
das nuvens. 

Teu riso era espontâneo,
quebrava os diálogos densos,
enfeitava as conversas áridas
e fugia sorrateiramente dos focos
considerados desnecessariamente 
tão necessários.

Mas havia noites em que teu sorriso
acalmava meus ânimos
e provocava outros tantos risos 
para brincar com os teus. 

E havia tardes em que meu silêncio
era lugar seguro para que teu peito
suspirasse. 

Meu afã, contornava-nos
com uma áurea de certeza e 
estabilidade. 

Teu ânimo, ascendia os espaços,
embelezava os cômodos
e coloria as horas. 

Meu amor queria criar um ninho,
teu amor temia gaiolas
e teu entusiasmo para voos
parecia 
ao meu amor, 
ir embora. 

Meu amor queria amparar-te no mundo,
teu amor queria atirar-me ao mundo
e fazer o meu amor taciturno, 
dançar com o teu, 
um pouco aqui
e acolá.  

Há um desencaixe fundamental entre nós.

Quando repentinamente os terremotos vieram, 
abalando alicerces e alargando as fendas 
entre meu amor e o teu, 
meu amor permanecera, 
agarrado aos planos
e o teu amor, jovem e esperto como era, 
correra, 
saltitando. 

(Novembro, 2025)






Pintura: Olhar para olhar - Edvard Munch

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