Há mar

 

Agradeço ao mar como a uma entidade viva.

Quando me aproximo, sinto-me parte dele. Seus sons vibram, envolvem-me numa experiência mística de promiscuidade com ondas quase magnéticas.


Quantos momentos belos vivi em suas beiradas, amores espalhados pela areia, sorrisos despejados em seus leitos, euforias que dilataram as pálpebras e ultrapassaram os limites das filosofias letradas.


Quantas reflexões o mar nos desperta!
Achegamo-nos ante sua magnitude
e a rainha nos provoca:
há vida a experimentar!
Vida longe dos tempos corridos,
dos compromissos inadiáveis,
das cobiças mundanas.

Mas o mar e a água fazem parte do mundo,
não desse que se paga para respirar,
mas daquele que tudo distribui
gratuitamente
a quem chega.


Quanta riqueza, que patrimônio de todos os seres!
E para ser de todos,
antes deve ser de ninguém.


Há, mar, quanto aprendo contigo,
quanto descubro em tuas feitiçarias
o amor grande e perpétuo.


Em ti também há imensidões insondáveis
e perigos iminentes. Não nego:
há aspectos sombrios na tua força
e no terror que os ventos podem produzir.

Mas tu, mar, como tudo na vida,
carregas em ti a morte —
para lembrar que a beleza também é questão de tempo.


Há vida.
Há morte.
Há mar.


(Dezembro, 2025)


Pintura: Atmosfera noturna a beira mar - Carl Neumann




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