Há um prazer em iludir-se

Quero dizer que meu gosto é teu.

Mas para isto, peço silêncio:
que não ouças minha voz,
nem leias o que escrevo.
Não respondas às indagações.
Nem repares minha perplexidade.
Permanece assim, dormente.

Deste modo manterei minha fantasia desperta!

Ela é linda, desafiadora e instigante.
Faz-me sentir fraco
por não ser valente o suficiente para dizer-te
que estou arrebatado.

Tu observas de longe meus movimentos,
notas minhas oscilações de humor
e te presentificas com gestos minúsculos,
quase imperceptíveis.

Mas talvez não haja o que se perceber.

Tu ris do quanto me fazes suspirar,
e percebo-me refletindo
o quanto te desejar é algo desvairado.

E talvez seja.

Fazes-me parecer um louco,
perdido no limbo do tempo, extraindo de fragmentos desconexos
sentidos, significados e
mensagens ocultas.

Que ninguém vê.

O sóbrio me diz que isto tudo é horóscopo,
falas genéricas de médiuns e videntes:
ouço o que quero ouvir,
vejo o que quero ver.

Por isso, peço insistentemente que permaneças em silêncio,
pois assim, a voluptuosidade dos meus fantasmas
encarna em ti
as belas cenas,
as belas músicas.

Tu me fazes esquecer
dos meus pedaços que deixei no caminho,
dos golpes afiados que dilaceraram minhas paixões.

Tu, criação, me alucinas,
pois tua beleza,
tua impossibilidade,
tua arrogância,
tua distância
clamam por mim.

E eu,
loucamente,
me perco,
indo até ti
em pensamentos ardentes
e utopias fantásticas.

Mas insisto que não respondas,
pois o encontro de mim comigo é doloroso.

Entretanto, entorpecido pelas ficções
que te enaltecem
e ébrio pela expectativa da (im)possibilidade de um dia
te encontrar em carne,
tudo isso é para mim
uma delícia de uma droga!

Alterado.

Alimento este estado de espírito elevado:
há grande necessidade.

Só um amor cura outro amor, gritam os românticos.

Como não o sou,
prefiro crer que boas doses de sonhos
com injeções de fábulas narcísicas
me são suficientes para recuperar as partes
que me faltam
e ser novamente
completo
e
onírico.
 

(Dezembro, 2025)

                                                                                  
Às vezes, a única maneira de nos recompormos é inventando quem nos ama.




Pintura: Nome desconhecido - Rafal Olbinski

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