Há um prazer em rasgar fotos

Há um prazer em rasgar fotos,
incendiar lembranças
e apagar
vestígios
de afetos
perdidos
entre
escombros
de memórias
recônditas.

Há um sabor
que dizem ter a liberdade
em deixar
que o fluxo
contínuo
de pensamentos
e impressões
seja apenas isso:
um fluxo contínuo
de pensamentos e
impressões.

Correntes,
que aos poucos
se esvaem.

Vidas finitas
que fenecem,

tempos marcados
que passam
e já não nos lembramos
que horas foram.

Queria eu,
em tempos atrás,
arremedar os tanques
que abraçavam leitos,
rios,
nascentes,
açudes
e espécies
de peixes
e outras criaturas
várias.

Que ilusão!

Hoje desejo
desaguar-me
e perder-me
sem anseios
de ser achado.

Quero ser visto
entre um relâmpago
e outro,
por acidente,
por imprevisto,
em algumas dessas festas,
entre pessoas ébrias,
dançando
discretamente
aos cantos.

Gostaria de ser quase capturado
pelo teu olhar
em alguns destes mercados
quaisquer,
comprando coisas quaisquer
em um dia banal.

Quem sabe em uma cena
no trânsito,
dirigindo pelo outro lado da via
ou atravessando a rua,
disperso,
distante,
teu olhar
perceba-me
após
ligeiros segundos
que evitaram
minha captura.

Gostaria eu de ser notado
pelo canto escorregadio
dos teus olhos
em lugares públicos
abarrotados de gentes
sem rosto,
sem nome.

Queria eu ser,
por uma peripécia do azar,
avistado
em outra ocasião,
novo,
estranho,
anônimo.

Hoje me fascina
o esplendor das cachoeiras
que transmitem
o fulgor
das nascentes d’água
tão esperançosas
e cheias de destruição
e de vida.

Desejo assistir, como tal,
o desaguar dos tempos
e das experiências,
admirando
o movimento
daquelas correntes
que partem
tão depressa,
sem saber donde vieram,
desconhecendo
para onde vão.

Quero impermanecer
sempre
e
sempre,  

até não
ser

(Dezembro, 2025)




Pintura: Menina do brinco de pérola - Johannes Vermeer

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