Ela

Ela não frequenta os mesmos espaços,
odeia caminhos percorridos diariamente,
foge dos mapas e dos relógios,
escapa do afã de quem controla.

Ela é irmã mais nova do amor,
ri de sua gravidade, da maneira como chora,
da maneira como se entrega e de como mata.

Nunca quis grandes compromissos, todos sabem disso.
Vive na fugacidade, na ligeireza, na dança.
Ela é amiga da boemia, gargalha nas esquinas,
nas vielas, 
clareia.

Também chora com os tristes,
nasce no coração dos amargurados, entre os melancólicos,
embeleza seu pranto, faz música. 

Nunca esteve refém de pertencimentos. 

Surge sem ser evocada, mistura-se,
ela se derrama facilmente, seu riso é frouxo, é fácil.

Como apaixona!
Sem ela não valeria a pena viver. 
Sem ela, tudo seria redundante, em pobreza de espírito,
fome de poesia.

Todos estariam condenados a viver
o terror de uma vida sóbria,
sombria,
pálida.

Quem anda com ela há que ter um espírito vagabundo,
uma inclinação à vadiagem,
amor pela torpeza,
pela piada,
pela inverdade de todas as coisas.

Há que se indignar os puritanos e os platônicos.
Há que se dispor a viver andarilho, as margens,
pois o centro do mundo,
o seu núcleo,
tem uma aparência árida,
circunspecta
e moribunda.

(Maio, 2026)

pintor e pintura desconhecidos




















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